sábado, 2 de abril de 2011

Economista da UFRJ demole mitos sobre o desempenho atual da economia brasileira

CORREIO BRAZILIENSE (DF)
ECONOMIA • 20/3/2011


Luciano Pires

Crescer 7,5% no ano passado fez bem, mas não foi suficiente para garantir ao Brasil uma fatia maior do bolo de riquezas produzidas no mundo. Embora tenha ajudado a incrementar o orçamento das famílias, o desempenho econômico recorde também não elevou a renda per capita nacional no mesmo ritmo que nas nações emergentes. Na avaliação de Reinaldo Gonçalves, professor de economia internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a era Luiz Inácio Lula da Silva deixou legados. Nenhum deles, porém, tão significativo a ponto de livrar o país de efeitos colaterais. Gonçalves tabulou dados que reposicionam o Brasil no contexto histórico recente. Na corrida da renda média, por exemplo, de 2002 para cá, os brasileiros ficaram atrás de russos, de chineses e de indianos. Ao longo dos oito anos em que Lula esteve no poder, o Produto Interno Bruto (PIB) avançou em média 4%, enquanto o planeta saltou 4,4%. Comparado aos últimos 29 presidentes, o petista está na 19ª posição — ganha de Fernando Henrique Cardoso, mas perde para José Sarney e Itamar Franco.Crítico contundente da política econômica, o especialista ataca o sistema de câmbio flutuante, diz que o país vive um processo de desindustrialização e que a obsessão por aumentar juros como única arma para conter o repique de preços é um equívoco. Gonçalves alerta ainda para uma série de “bombas-relógio” que, segundo ele, vão explodir mais cedo ou mais tarde. “Há uma absurda expansão do crédito, inclusive gerando bolhas de ativo real. É o caso do setor imobiliário”, reforça. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Correio. 
 
 Expansão em 2010
A base do crescimento experimentado no ano passado é 2009, ou seja, a expansão extraordinária de 7,5% em 2010 é explicada pela crise econômica e pela queda do ano anterior (-0,6%). Mas há outra explicação: o governo aproveitou a necessidade de sair da recessão, e de olho no ciclo eleitoral, soltou muito o crédito, incentivou o gasto de consumo. Houve uma convergência entre o ajuste macroeconômico com o oportunismo político do Lula. O governo soltou muito a economia. Temos de entender 2010 de três formas: a compressão da base, o oportunismo político e o erro da área econômica, que pesou na mão e deixou sequelas. O Brasil vai pagar o preço.

No PIB mundial
Em 2010, a participação do Brasil na economia mundial foi de 2,9%, exatamente a mesma de 2002. Observando a renda per capita, neste período, o país perde posições. Houve um retrocesso relativo.
 
Medíocre
Nos anos Lula, o país cresceu, em média, 4%. Isso não é mérito. No período, a média mundial foi de 4,4%. Entre os 29 últimos presidentes do Brasil, Lula fica na 19ª posição. O Lula foi um presidente medíocre para os padrões históricos brasileiros. O desempenho foi fraco. Uma parte da explicação para esse desempenho tem a ver com a gestão macroeconômica, que é, no mínimo, inapropriada. O câmbio flexível, essa política monetária focada única e exclusivamente na inflação e a forma como a questão fiscal é conduzida são problemas graves. O tripé macroeconômico cria problemas, trava o desenvolvimento e está ajudando a montar bombas de efeito retardado. 
 
Gestão Dilma
Não acho que haverá inflexão alguma. A presidente Dilma manterá as bases de seus antecessores pela mesma razão que Lula manteve, ou seja, pela covardia política e pela ausência de vontade de transformação. Segue a lei da menor resistência. Isso que acabou contaminando o PT e boa parte das forças políticas sob a liderança do Lula. Não há disposição. As expectativas de crescimento tendem a se repetir. Vale notar que os problemas continuam se acumulando. Um deles é um passivo externo crescente. Isso sem falar na pressão inflacionária e nas contas públicas gerando desconforto.

Política externa
A política externa do Lula teve muita alegoria e pouco enredo, muita garganta e pouca ação efetiva. O que o Brasil ganhou concretamente oito anos depois? Uma prioridade era o Mercosul, que acabou andando para trás e está muito mais fraco. Multilateralmente, o Brasil não conseguiu atingir suas pretensões. O Brasil cedeu às pressões dos Estados Unidos e contribuiu para o caixa do Fundo Monetário Internacional como uma espécie de pedágio para usar o G-20 como plataforma de uma retórica vazia. A atuação com o Irã foi, absolutamente, ridícula. Entre os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), o país é o mais fraco de todos. 

Volta ao passado
Vivemos um processo de desindustrialização e, pior do que isso, um processo de reprimarização. Boa parte do investimento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), da acumulação de capital, está focada na direção de produtos primários. É o pré-sal, o agronegócio, a mineração. O Brasil perde competitividade. As commodities não são motor de desenvolvimento. A herança negativa do Lula é um modelo de crescimento empobrecedor. É uma volta ao passado, ao café, ao açúcar, à borracha. Vamos sentir isso claramente nas contas externas e no nível de renda.

Otimismo trágico
Há uma absurda expansão do crédito, gerando bolhas no setor imobiliário. Temos hoje moças e garotos que compram imóveis financiados por 30 anos pagando a maior taxa de juros do mundo. Daqui a alguns anos, eles ficam desempregados e, aí, teremos um problema social. A propaganda foi a coisa mais eficiente do governo. Há uma espécie de otimismo trágico no Brasil. As pessoas avaliam que a situação não é boa, mas acham que poderia ser pior. Na comparação com o pior, acabam tendo uma visão equivocadamente otimista do presente e alimentam uma esperança com relação ao futuro que as levam a cometer erros graves, endividando-se. Não houve transformações importantes. A sociedade civil sai do governo Lula mais frágil do que entrou. As pessoas evitam ver a realidade.

Mobilidade social
Não há essa história de nova classe média no Brasil. Se considerarmos a taxa de câmbio, podemos duplicar o tamanho dela. O problema é que essa contabilidade é ilusória. As linhas de corte são dadas por cestas de bens e serviços. Como o dólar está muito barato, as pessoas não avançaram, as linhas de corte é que foram rebaixadas. Quem ganha um salário mínimo pode consumir tranquilamente 25 garrafas de vinho importado por mês e dizer que é classe média. Mas acontece que o vinho caiu de preço. O mundo está financiando a gente. Para quê? Para a gente se sentir mais rico. Acontece que estamos devendo ao mundo US$ 1,3 trilhão. E vamos ter de pagar. O dólar barato é uma forma irresponsável de manter a inflação baixa e de permitir essa mobilidade artificial de classes.
 
Câmbio artificial
O câmbio tem de ser administrado. Assim, evita-se um nível artificial. O dólar mais barato do mundo é no Brasil. Alguma coisa está errada. A política cambial no Brasil é absolutamente incompetente. É preciso tirar esse artificialismo. A Argentina, com um câmbio administrado e uma gestão monetária e fiscal inteligente, tem um crescimento bem superior ao brasileiro. Se o Brasil continuar nessa trajetória, daqui a 25 anos ou 30 anos, é provável que o PIB argentino ultrapasse o nosso. Eles crescem a uma taxa média de 7,5% de forma muito mais sustentável.
 
Líder natural
Não adianta dizer que a economia brasileira vai ultrapassar a francesa ou a italiana. Os países em desenvolvimento estão crescendo o dobro, correndo por fora, e isso é o que importa. Eles certamente ultrapassarão o Brasil. Já têm renda per capita maior, inclusive. O líder natural na América Latina será a Argentina e não o Brasil.
 
Falsa blindagem
O passivo externo, a vulnerabilidade que aumentou durante o governo Lula, é grave. Nossa blindagem é de papel-crepom. As reservas são de US$ 300 bilhões. Parece muito, mas metade do passivo de US$ 1,3 trilhão é de curto prazo, é de hoje para amanhã. Tem outra bomba que mais cedo ou mais tarde vai fazer com que as pessoas acordem, que é o carnê, o financiamento. O problema é que a sociedade é frágil, o governo Lula cooptou sindicatos, organizações não governamentais. Houve um movimento de compra de mentes, de corações, de corpos, o que gerou essa fragilidade toda.
 
Falta oposição
A oposição no Brasil é inexistente e hipócrita porque não consegue se posicionar de forma firme. Silenciosamente, ela apoia o governo porque é medíocre, assim como o próprio governo. Por isso, a marcha da insensatez está em curso. Temos 1% de oposição, na qual eu me incluo. Esse otimismo todo é fruto de ignorância, da venda de muita gente e da covardia das pessoas. Melhor ser uma voz no deserto. Não quero ser o camaleão carregado na boca do carcará.
 
 

 

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1 comentários:

Paulo Dandrea disse...

falei que ia estourar uma bolha imobiliária no brasil?

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